Eu sangro

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Sangro porque ser mulher já é de sangrar, porque caber em meu corpo sangra.

Data da última menstruação? A pergunta do ginecologista não podia ser mais inoportuna. Nós queremos esquecer a data do último sofrimento. Nós não decoramos a data da última menstruação. Alguém já disse isso aos ginecos?

Mas por que será que sangrar é complexo e tão confuso para mulher?
Ontem, sangrei sob a lua minguante.
Acordei sob o olhar atento ao incômodo que me perturbava o sono. Dormi mais do que o mundo permitia, mas o necessário para repor tanto sangue jorrado e sentido.

Ontem, uma menina que odiava sangrar, que nunca lembrava a data da última menstruação, se deu conta que hoje sabe exatamente quando vai sangrar.
Sabe quando o óvulo está pronto para ser fecundado.
Somente as mulheres que sentem e vivem realmente o sangrar sabem a magia que é ovular, desejar.
Sentir que algo dentro é cíclico, é sábio e natural, é para muitas, mas não para todas. É natureza nua, crua e pura. E mais tudo o que vem junto.

Ontem, um domingo como outro qualquer poderia ter sido. Mas não foi. Porque hoje escrevo essas linhas como uma legítima mulher no cio. No cio da dor e da loucura, da intensidade emocional que me toma nos dias mais vermelhos de meu ciclo.

Às vezes sono, por vezes energia.
Às vezes tesão, mil vezes irritação.
Mil vezes sem razão.
Todos esses estados controversos me transformam numa mulher enlouquecedora e de enlouquecer.

Um filme que pode passar despercebido ou deveras criticado me tocou por retratar esse imenso colosso que é ser mulher e caber em cada um de seus ciclos: Nome próprio sangra, sofre, exagera, chora, perde a noção, descabe, desnuda, cria, descria, se perde, se acha o tempo todo. Mas nós mulheres sabemos que o filme não é mera ficção e exacerbação da personagem ou do roteiro.
Ser mulher é estar nua. É querer tirar a roupa e não poder. É querer colocar a roupa e não saber.
É querer sangrar não sei porque. É querer parar o sangrar, mas saber que sem sangue, lágrimas, ilusões, paixões e entregas a vida não seria como ela é.
Se não fossemos tão plurais e complexas, se não tivéssemos uma grande Montanha Russa em nós, como seria o mundo?
O que seria da natureza se não soubéssemos a data da última menstruação?

Paloma Bastos – Texto de 28/julho/2008

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